terça-feira, 13 de setembro de 2011

DEIXE A RAIVA SECAR


DEIXE A RAIVA SECAR
Mariana ficou toda feliz porque ganhou de presente um joguinho de chá, todo azulzinho, com bolinhas amarelas.// No dia seguinte, Júlia, sua amiguinha, veio bem cedo convidá-la para brincar.//
Mariana não podia, porque ia sair com sua mãe naquela manhã.// Júlia, então, pediu à coleguinha que lhe emprestasse o seu conjuntinho de chá, para que ela pudesse brincar sozinha na garagem do prédio.// Mariana não queria emprestar, mas, com a insistência da amiga, resolveu ceder, fazendo questão de demonstrar todo o seu ciúme por aquele brinquedo tão especial.// Ao regressar do passeio, Mariana ficou chocada ao ver o seu conjuntinho de chá jogado no chão.// Faltavam algumas xícaras e a bandejinha estava toda quebrada.// Chorando e muito nervosa, Mariana desabafou: Está vendo, mamãe, o que a Julia fez comigo?//
Emprestei o meu brinquedo, ela estragou tudo e ainda deixou jogado no chão.// Totalmente descontrolada, Mariana queria, porque queria, ir ao apartamento de Júlia pedir explicações.// Mas a mamãe, com muito carinho, ponderou:
Filhinha, lembra daquele dia quando você saiu com seu vestido novo todo branquinho e um carro, passando, jogou lama em sua roupa? Ao chegar a sua casa você queria lavar imediatamente aquela sujeira, mas a vovó não deixou. Você lembra do que a vovó falou? Ela falou que era para deixar o barro secar primeiro. Depois ficava mais fácil limpar. Pois é, minha filha! Com a raiva e a mesma coisa. Deixa a raiva secar primeiro. Depois, fica bem mais fácil resolver tudo.
 Mariana não entendeu muito bem, mas resolveu ir para a sala ver televisão.// Logo depois, alguém tocou a campainha.// Era Júlia, toda sem graça, com um embrulho na mão.// Sem que houvesse tempo para qualquer pergunta, ela foi falando:
Mariana, sabe aquele menino mau da outra rua que fica correndo atrás da gente? Ele veio querendo brincar comigo e eu não deixei. Ai ele ficou bravo e estragou o brinquedo que você havia me emprestado. Quando eu contei para a mamãe ela ficou preocupada e foi correndo comprar outro brinquedo igualzinho para você. Espero que você não fique com raiva de mim. Não foi minha culpa.
Não tem problema, disse Mariana, minha raiva já secou. E, tomando a sua coleguinha pela mão, levou-a para o quarto para contar historia do vestido novo que havia sujado de barro.
 Aprenda com essa interessante história.// Antes de cometer injustiças sem saber da real situação, deixe a raiva secar.../////

Muito prazer...sou uma miss imperfeita!

Miss Imperfeita! - Martha Medeiros

Miss Imperfeita! - Martha Medeiros
(Texto na Revista do Jornal O Globo)
'Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes. Sou a Miss Imperfeita, muito prazer. A imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe, filha e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado, decido o cardápio das refeições, cuido dos filhos, marido (se tiver), telefono sempre para minha mãe, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos e ainda faço as unhas e depilação!
E, entre uma coisa e outra, leio livros.
Portanto, sou ocupada, mas não uma workholic.
Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.
Primeiro: a dizer NÃO.
Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO. Culpa por nada, aliás.
Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.
Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros.
Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.
Você não é Nossa Senhora.
Você é, humildemente, uma mulher.
E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável. É ter tempo.
Tempo para fazer nada.
Tempo para fazer tudo.
Tempo para dançar sozinha na sala.
Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.
Tempo para sumir dois dias com seu amor.
Três dias.
Cinco dias!
Tempo para uma massagem.
Tempo para ver a novela.
Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.
Tempo para fazer um trabalho voluntário.
Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.
Tempo para conhecer outras pessoas.
Voltar a estudar.
Para engravidar.
Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.
Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.
Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.
Existir, a que será que se destina?
Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.
Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.
Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!
Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.
Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.
E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante'
Martha Medeiros - Jornalista e escritora
*  *   *
E mais:um vídeo básico da grande Rita Lee,editado e pego lá no You Tube.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Antes de falar sobre alguém tão polêmico...um breve histórico

 Por muito tempo eu tive vergonha de demonstrar que gostava de algumas músicas de Raul Seixas por saber de alguns episódios de vida dele, principalmente pelo que aprendi que o mesmo tinha feito pactos para alcançar o sucesso e até me recusava a cantar algumas canções...depois, deixei o lado "ruim" da vida que ele quis levar e foquei na interpretação das músicas que eu gostava e como cada leitor é um leitor, eu procurei descobrir as coisas positivas que haviam nas canções e o que me trariam de reflexão.Um dia, lendo um livro deparei-me com "Ouro de Tolo" e comecei a refletir naquela música que na minha concepção fazia uma crítica aos que pensam que atingiram um certo nível social, adquiram bens materiais ou entraram para o high society, a vida estava completa.Bom, Raul já se foi e faz tempo e tirando a história do disco voador(talvez o disco voador fosse a própria cabeça dele que voava sem direção, nem destino certo pra parar) eu gosto da inquietação de "Ouro de Tolo" e da hipocrisia em que sentimos ou não felizes na aquisição de certos padrões que exigem uma sociedade cada vez mais exclusória e preconceituosa.Acho que ele foi um grande compositor, antes de todas as polêmicas em sua volta.Não penso e nem faço o que ele fazia, mas gostar de refletir sobre as coisas da vida e as bobagens, os achismos de uma vida que é efêmera, me faz feliz.
Breve Histórico:
"Raul Santos Seixas (Salvador, 28 de junho de 1945 — São Paulo, 21 de agosto de 1989) foi um famoso cantor e compositor brasileiro, frequentemente considerado um dos pioneiros do rock brasileiro. Também foi produtor musical da CBS durante sua estada no Rio de Janeiro, e por vezes é chamado de "Pai do Rock Brasileiro" e "Maluco Beleza".
Sua obra musical é composta de 21 discos lançados em seus 26 anos de carreira e seu estilo musical é tradicionalmente classificado como rock e baião, e de fato conseguiu unir ambos os gêneros em músicas como "Let Me Sing, Let Me Sing"[4]. Seu álbum de estreia, Raulzito e os Panteras(1968), foi produzido quando ele integrava o grupo Os Panteras, mas só ganhou notoriedade crítica e de público com as músicas de Krig-ha, Bandolo! (1973), como "Ouro de Tolo", "Mosca na Sopa", "Metamorfose Ambulante". Raul Seixas adquiriu um estilo musical que o creditou de "contestador e místico", e isso se deve aos ideais que vindicou, como a Sociedade Alternativa apresentada em Gita (1974), influenciado por figuras como Aleister Crowley."
Letra da música Ouro de Tolo

Ouro de Tolo

Raul Seixas

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês...
Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso
Na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar
Um Corcel 73...
Eu devia estar alegre
E satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado
Fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa...
Ah!
Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa...
Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado...
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção
De coisas grandes prá conquistar
E eu não posso ficar aí parado...
Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Prá ir com a família
No Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos...
Ah!
Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro
Jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco...
É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal...
E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social...
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...
Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...

Só pra contrariar , um vídeo básico de uma outra banda que também mostram alguns dos meus conceitos...talvez seja isso chamado de paradoxo, mas como eu sou a soma das minhas escolhas, tá valendo!

Participação nesse post:
http://letras.terra.com.br/raul-seixas/48326/
You Tube
Wikipedia

domingo, 11 de setembro de 2011

Decifra-me ou devoro-te

É pessoal...já dizia o velho Chacrinha que quem não se comunica se intrumbica e o que fazemos quando damos de cara com esse "novo" jeito de escrever influenciado pela tecnologia (ipod, ipad, tablet, note, netbook, pc, skype, etc...).Lembrei da frase da pirâmide egípcia:"Decifras -me ou devoro-te!!!Vejam o texto abaixo:



≠s d comunikssaum
por Antonio Prata
A 1ª vz q abri o e-mail e dei de kra c/ uma msgm assim, naum entendi nd. Pnsei q era pau do outlook, pblma do cputador. Naum, nd dsso: era soh + uma leitora da KPRIXO que flava essa stranha lihngua da internet. Como a kda dia que passa, rcbo + msgs nesse dialeto sqzito, percbi q, ou aprendia eu tb a tklar assim, ou fikava p trahs. Na natureza nd c perde, nd c cria, td c transforma: tinha xgado a hr de eu tb me transformar.

Minha 1ª atitud foi tklar para Ehrika, uma garota que screv nessa lihngua, e prgntar como eu fazia p aprendr. Ela flou o sgte: “tipo_eh soh trocar CH por X, Ç por SS, H em vez de acento (é /eh; só/soh) e comer o máx d letras possihvel. Entendeu?” O q naum entendo eh pq tnta complicassão. Era taum fahcil scrver o bom e velho port_ Pgntei p o Joaum, 1 primo meu q screv ateh poemas desse jto: pq as pssoas estaum screvndo assim? Ele me garantiu q era pq era + fahcil. Serah? Olha soh, Joaum, Ehrika e td mdo: p tklar naum, uso 4 tklas. Para tklar não, tb uso soh 4. Eh =, ueh?! Kd a facilidad? (...)

Sei lah pq, + tenho minhas nohias. Serah q os garotos e garotas q passm o dia todo tklando assim, na hr que tiverem que screvr uma redação em port nrmal, vaum conseguir? Meu medo eh q os garotos e garotas, acostumads a essa forma de comunikssaum, tenham dfculdads c/ as outrs. Afnal, a histohria da humanidad estah tda em livrs, escrts com o portugs culto, cheio de vogais, acentos, vihrgulas, pontos e tdo+. Ou serah que, no futuro, os livrs vaum ser traduzids para a internet? (...)

Serah? Sei naum.,. Tvez eu seja antiquad, 1/2 pessimista, + gost da nossa lihngua e de tdos os pqnos dtalhes. Screvam como quiserm, c comuniquem na lihngua da internet, em cohdigo Morse ou c/ hierohglifos egihpcios, dsd q, d vz em qdo, abram um livro desses antigos, q usam acentos, e dehem uma lida. Tvez d + trbalho do q tklar no msnger, no ICQ ou num chat. + garanto que eh do kct.

Bjs, []s e ateh a prohxima edissaum.

Ass. Antn Prt!

Os brutos tb amam ou são só os que amam?

Seres irracionais, são os tais animais

Só os humanos são racionais porque pensam e dizem-se emocionais

Santa hipocrisia

Se o capitalismo e aquisição de bens materiais

É o que prevalesce entre nossos "sociais"

Puxam ou transformam em tapetes

A pele dos animais

Aí, já sem definição...

Pois puxam ou tiram

A pele do bicho ou do cidadão...


Não poderia ser diferente em 10 anos de massacre dos inocentes
Com ou sem defeitos eram "gente"
E para alguns,  estavam nos lugares errados e horas inerentes
Já para o mentor, que está no fundo mar
Estavam todos na hora e no certo lugar.
By me

sábado, 10 de setembro de 2011

Tudo o que você faz é sempre bem feito

Fábula de Hans Christian Andersen (Dinamarquês, escritor de várias outras fábulas, como O Patinho Feio, etc.)
Do meu livro:Reino colorido da criança (when I was 7 or 8 eight years old).Traduzido por Caio Ponte - Editora Formar Ltda.(Será que ainda existe?)
Procurava essa fábula por toda net, mas não conseguia, pois era diferente do título que tinha no meu livro,mas como não sou de desistir, encontrei no blog dessa moça aqui: mardehistoriassemfim.blogspot.com/.../tudo-esta-bem-quan.E a trouxe para cá, pois apesar de ser um pouco diferente do que contém no meu pré-histórico livro, é algo muito forte que permaneceu na "caixola"desde criancinha...rsrsrs.



Era uma vez em certo vilarejo antigo, esquecido até mesmo pelo tempo, preguiça que tinha de por lá passar, dois casebres muito velhos, em cujos telhados de sapé, cobertos por grama e musgo, duas cegonhas vieram construir seus ninhos.

Quando o vento soprava, dependendo da direção de onde vinha; as paredes dessas casas, de tão arruinadas, se inclinavam ora para a direita, ora para a esquerda. Para completarmos a descrição, estes casebres possuíam duas ou três (?) janelas baixas, mas, que, com exceção apenas de uma, estavam bastante emperradas. O forno, enterrado na parede, lembrava uma barriga grande, redonda e gorda. Do lado de fora, uma madressilva trepava sobre a cerca; espalhando seus galhos, protegendo com sua sombra uma linda e tranqüila lagoa de patos. Um cão de guarda latia sem cessar, se, por um acaso, alguém se lembrasse de passar por ali.

Pois bem, era num destes casebres miseráveis que vivia um casal idoso; um lavrador e sua mulher. Eles não possuíam nada neste mundo, melhor dizendo, quase nada, há não ser um cavalo, que costumava pastar perto dos fossos ao longo da estrada, e um magnífico jardim.

O velho lavrador sempre montava o animal quando ia à cidade e os vizinhos, de vez em sempre, o pediam emprestado e, em nome da velha amizade, o lavrador o emprestava, indo junto com o empréstimo um raminho de lindas flores, oferta calorosa e perfumada, delicado convite, porém, nunca percebido, para ensinar-lhes a difícil arte de se construir jardim. Mas, apesar da falta de percepção, os vizinhos em troca da gentileza, ajudavam o bondoso homem, nos mais diversos tipos de tarefas.

Entretanto, apesar deste excelente relacionamento com a vizinhança, o velho lavrador pensou que seria melhor se livrar do cavalo. Decidiu então, vendê-lo ou trocá-lo por qualquer outra coisa que fosse mais útil para ele e sua velha. “Alguma coisa que você valorize mais do que qualquer pessoa” recomendou a mulher ao seu esposo. “Hoje na cidade é dia de feira. Vá lá e leve o cavalo. Você, meu velho, há de ter um bom lucro vendendo-o ou trocando. Vá, vá, apronte-se logo... O que você fizer, para mim, estará bem.”

Ela foi buscar um lindo cachecol que colocou ao redor do pescoço de seu esposo dando-lhe em seguida um nó duplo pra lá de elegante. Ela lhe tomou o chapéu, e, com muito jeito, alisou-o com a palma da mão. Depois disto, deu-lhe um baita beijo e mandou-o seguir. Ele, obediente, montou no cavalo e foi à cidade, negociar.

“Sim”, disse consigo a velha senhora, enquanto lhe acenava um adeus, “o meu velho sabe o que faz. Ele é o melhor negociante que conheço.”

Naquele dia, o sol estava muito quente, e no céu não passeava uma nuvem. O vento levantava o pó da estrada pela qual passava - em carroça, a cavalo ou a pé - todo tipo de gente, apressada, ansiosa por chegar o quanto antes à cidade, pois o calor era intenso e pela estrada empoeirada não havia uma só estalagem.

No meio desse povo estava um homem com uma vaca, mas não uma vaca qualquer. Era uma vaca tão bonita como uma vaca pode ser.

O lavrador olhou para o animal e pensou: “Esta vaquinha deve dar um leite delicioso. Huum! Vejamos... a vaca pelo cavalo, certamente, seria uma troca maravilhosa!”

E foi assim que, parando ao lado do homem, o velho chamou-lhe a atenção: “Ei, senhor. Quero lhe fazer uma proposta. Ouça-me, por favor. Todos sabem que um cavalo custa muito mais do que uma vaca, mas, para mim isso não faz diferença. A vaca me será mais lucrativa que o cavalo. Portanto, o senhor gostaria de trocar a sua vaca pelo meu cavalo?”

“Ó, eu ficaria encantado”, respondeu o homem, mal acreditando em sua sorte. Então, para satisfação de ambos eles efetuaram a troca.

Bem, tendo isto ocorrido, o velho lavrador, bastante contente por ter feito um bom negócio, poderia ter retornado para casa, mas, como ele já havia resolvido fazer uma visita à feira, continuou em seu caminho para a cidade.

 Entre tanta gente apressada, ansiosa, o velho lavrador também se apressou embora a vaquinha, de vez em quando, o fizesse retroceder, fazendo desta maneira, que o velho demorasse por uns instantes na observação de seus próprios passos. Mesmo assim, não demorou muito e encontrou-se com um outro homem que levava uma ovelha, mas não uma ovelha qualquer, era uma ovelha de uma espécie rara, com pêlo lanoso espesso.

O velho pensou: “Ora, ora eis aí um belo animal para se ter. Uma ovelha encontrará todo o capim que vai precisar para comer ao lado de nossa cerca. No inverno podemos deixá-la dentro de casa, será uma excelente distração para minha amada. A ovelha é melhor para nós do que a vaca, certamente.”

Ele, então, se aproximou do dono da ovelha e disse: “Olá, amigo, você não gostaria de trocar...” Antes mesmo que pudesse completar a proposta, o velho viu-se com a cordinha da ovelha nas mãos. O homem, satisfeitíssimo com a troca, pegou a vaquinha e temendo que o velho lavrador se arrependesse do negócio, sumiu num abrir e piscar de olhos.

O velho lavrador, desta vez em companhia da ovelha, continuou sua jornada rumo à cidade. A certa altura, ele viu um homem carregando debaixo do braço, um ganso vivo; gordo e grande, mas não era um ganso qualquer, era um ganso magnífico, um ganso que não se encontrava em qualquer lugar. O velho lavrador estava muito admirado.

“Ahá...eis aí uma bela criatura” pensou consigo o lavrador. “Esta é uma ave espetacular. Tanta gordura! E que penas maravilhosas! Em nossa casa, minha esposa acharia um modo de deixá-lo ainda mais gordo. Ele poderia comer todas as sobras e então, de que tamanho ele não ficaria...? Lembro-me de que ela constantemente me dizia: ‘Ah! Como seria bom se tivéssemos um ganso. Ele ficaria muito bem junto aos nossos patos’. “Sim”, continuou a pensar o velho lavrador; “ele ficaria muito bem junto aos nossos patos. Talvez, esta seja a nossa oportunidade de ter um ganso; mas não um ganso qualquer; um ganso que, certamente, valerá por dois!”

E o velho lavrador, disposto a não mais perder tempo, dirigiu-se ao dono do ganso:

Olá, meu amigo. Gostaria de fazer uma troca comigo? Dê-me o seu ganso e leve a minha ovelha. Eu não faço questão de mais nada!”

A este homem também não foi preciso perguntar duas vezes e o velho lavrador, sem dificuldades; logo se tornou um feliz dono de ganso.

 A essa altura, ele já estava às portas da cidade. A multidão aumentou; homens e animais, devido à pressa, atropelavam-se ao longo da estrada. A dificuldade em caminhar era tanta que até dentro das valas, perto das cercas dos campos, algumas pessoas foram parar, entretanto, no portão de entrada da feira a confusão era ainda maior, um verdadeiro “Deus nos acuda”. Lá, todo mundo se empurrava para entrar.

Em meio a balburdia, o coletor de impostos da cidade levantou no ar uma galinha, que ele, por receio da multidão, prendera num barbante para que assim ela não se assustasse e fugisse. Ela aninhou-se no portão de entrada e bateu as asas cortadas; piscou o olho, de maneira graciosa e em vez de fazer “co-có-ri-có” ela fez “claque, claque”... Será que a galinha estava a pensar em alguma coisa? Quem saberia? Porém, o velho lavrador que atentamente observara a reação do coletor de impostos, pois estava de olho na galinha, achou aquilo muito engraçado, engraçado mesmo e danou-se a rir, pensando: “Essa bichinha é ainda mais bonita que a galinha choca do pastor.

 Ela não é uma galinha qualquer e é tão engraçada... Quem continuaria indiferente diante dela? Certamente lá no vilarejo todos cairiam na gargalhada! Deus do céu, como eu gostaria de tê-la. Com certeza, a galinha é um animal mais fácil de se criar... Ela não requer tantos cuidados, pois come grãos e migalhas espalhadas pelo chão.

 Penso que se eu conseguisse trocar o meu gordo ganso por essa belezinha, eu faria um excelente negócio. Ora, se faria...”

O lavrador achegou-se ao coletor de impostos e pondo o ganso à vista, lhe perguntou: “O senhor não trocaria sua galinha por este ganso?”

“Trocar? Mas, é claro. Isso seria perfeito.” Respondeu o coletor de impostos, que então levou o ganso, deixando a galinha nas mãos do lavrador.

O velho negociara bastante durante esta jornada até a cidade e agora estava cansado e muito incomodado com o calor. Ele necessitava urgentemente de alguma coisa para comer e beber. Olhou ao redor e logo viu uma estalagem para onde se dirigiu com passos ligeiros. Neste justo momento, saía um rapaz da dita estalagem carregando uma bolsa cheia até a boca. O velho, curioso, imediatamente, lhe perguntou: “Ei, rapazinho, o que estás levando aí?”

“Ó, isto aqui, senhor?” Respondeu o rapaz. ”Não é nada demais... É apenas um saco de maçãs murchas que vou jogar aos porcos.”

“Upf”! Resmungou o velho, “o que é que estás dizendo? Maçãs murchas para jogar aos porcos? Que extravagância, que desperdício! Minha amada esposa faz coisas maravilhosas com maçãs murchas. Ela ficaria tão feliz com todas essas maçãs... Desde o ano passado que a nossa velha macieira, que fica junto ao estábulo, não dá sequer um único fruto. Costumamos as apanhar ainda verdes para guardá-las no armário da cozinha até ficarem maduras. Diz minha esposa que isto é um sinal de quem se sente confortável, imagine então o que ela não diria se lhe conseguisse um saco cheio de maçãs? Eu adoraria fazer-lhe esta surpresa.”

“Tudo bem, mas o que o senhor me daria em troca do saco?” Perguntou o rapaz.

“O que eu daria? A galinha, é claro! Não achas que está bom?”

O rapaz aceitou a troca prontamente. Em seguida, o velho lavrador entrou na estalagem com o saco, que pôs, com muito cuidado, perto do fogão, que, aliás, estava muito quente, 'fato, porém que o velho lenhador nem percebeu. Pediu um trago e o tomou avidamente.

Havia gente demais na estalagem; negociantes de cavalos, criadores de gado e muitos viajantes. Entre estes últimos, encontravam-se dois franceses com bolsos abarrotados de moedas. Os dois sujeitos eram tão ricos, que, só para se livrarem um pouco mais do peso de tanto dinheiro, adoravam fazer todo tipo de aposta.

Repentinamente, do fogão partiu um estranho ruído: ssss-ssss!.. “O que foi isso?” Perguntou um dos franceses. Pois não é que eram as maçãs que estavam começando a cozinhar?

“Oh, minhas maçãs...!” Disse o velho lavrador, e ele então contou aos franceses, tintin por tintin, toda a sua aventura.

“Sendo assim, meu bom homem”, disseram-lhe os franceses, “sua esposa ficará furiosa. Espere só até você chegar em casa!”

“Furiosa nada”, lhes respondeu por sua vez o velho lavrador, “minha velha vai é me abraçar e dirá toda sorridente: ‘O que o meu velho faz está sempre certo, seja lá o que for ou como for. Tudo está bem quando acaba bem.”

Os franceses, que viram nisso uma boa oportunidade para apostar, não perderam tempo e lhe disseram assim: “Se o senhor está tão confiante de que tudo vai acontecer desta maneira, que tal fazermos uma aposta? Nós, meu amigo e eu, apostamos cem quilos de ouro.”

“Bem, não precisa tanto. Uma sacola será o bastante”, disse-lhes o lavrador, “porém, para apostar, tenho apenas este saco de maçãs. Eu diria que é uma boa troca. Se aceitam considerem a aposta fechada.”

“Claro que aceitamos. Um saco de maçãs é o suficiente.”

Após esta conversa, onde mais uma vez, para alegria dos franceses, uma aposta foi firmada, os três homens pediram emprestada a carroça do estalajadeiro, subiram nela e rumaram confiantes de volta ao sitiozinho em que começara toda essa história.

Mal entrou na cabana, o velho lavrador abraçou sua velha lhe dizendo carinhosamente: “Boa noite, minha amada.”

“Boa noite, meu amado”, respondeu a velha, retribuindo-lhe com o mesmo entusiasmo a sincera saudação.

O lavrador então, disse à sua esposa: “Sabe querida, eu troquei o cavalo.”

“Ah, que bom, querido!” Disse-lhe a esposa, beijando-lhe o rosto, sem notar o saco de maçãs ou a presença dos dois estranhos. “Você, meu velho, sabe mesmo negociar.”

O lavrador tornou a falar. “Eu troquei o cavalo Por uma vaca.”

“Graças a Deus!” Disse a esposa, “de hoje em diante, teremos leite, manteiga e queijo! Que troca maravilhosa.”

“Sim, teríamos leite manteiga e queijo”, retrucou o lavrador, “mas acontece que eu troquei a vaca por uma ovelha.”

“Você é mesmo muito esperto”. Disse a esposa, lhe piscando um olho, “uma ovelha no lugar de uma vaca é ainda melhor. Capim é o que não falta por aqui. Ademais, uma ovelha também pode nos dar leite e eu adoro queijo de ovelha. Teremos lã, com a qual poderei tricotar meias e casacos lindos e quentes. Uma vaca não poderia nos dar tudo isso. Que maroto! Você pensa mesmo em tudo.”

“Espere, querida, ainda não acabou. Eu troquei a ovelha por um ganso.”

“Ótimo, querido. Teremos um gordo ganso assado para Natal. Você não existe. Sempre tão gentil; nunca se esquece de mim. Você sabia que um ganso muito iria me agradar. Daqui até o dia de Natal, ele ficará mais gordo e bonito.”

“Sinto muito, minha velha”, disse o lavrador, “porém já não tenho mais o ganso; eu o troquei por uma galinha.”

“Não há problema nenhum, meu amado esposo”, respondeu-lhe a velha, “uma galinha tem lá a sua utilidade. Ela põe ovos, choca e depois nascem os pintinhos, que logo vão crescer e então, teremos aves à vontade para comermos. O meu sonho é possuir uma verdadeira granja.”

“Bem minha esposa, eu finalmente, troquei a galinha por um saco de maçãs murchas. Você havia me dito para que trocasse ou vendesse o cavalo por algo que eu valorizasse mais do qualquer pessoa, e não existe nada; nem ninguém que tenha mais valor para mim do que o conhecimento, já que aquele que o obtêm, por pouco que seja feliz será, mas como conhecimento não é tão simples de se encontrar, usei o que aprendi a usar e acho que me sai melhor do que todos eles. E quanto a você minha cara, saiba o quanto lhe amo, pois foi graças ao seu conselho que me acompanhou durante todo o tempo, que não ‘troquei’ os pés pelas mãos.”

“Verdade, meu marido?” Exclamou a esposa, demonstrando um tão inesperado espanto que quase perdeu a fala. “Você merece um beijo, meu amado marido. Sabe o que aconteceu esta manhã, assim que você saiu? Eu pus-me a pensar no que poderia fazer para o nosso jantar. Ovos com manteiga e cebolas foi o que me ocorreu. Eu tinha os ovos e a manteiga, mas não havia cebola. Dirigi-me, então, ao diretor da escola, que possui uma bela plantação de cebolas e falei com sua esposa. Você sabe como ela é. Debaixo daquela aparência meiga se esconde uma bruxa mesquinha e quando há má vontade, seca-se farinha no varal. Mas, mesmo assim, pedi-lhe emprestado um punhado de cebolas.”

“Ao ouvir meu pedido, eis o que a bruxa me disse: ‘Emprestar? Não temos nada para emprestar. Nossa horta acabou, nem as cebolas escaparam. Sinto muito, vizinha, não temos mesmo nem um punhado de maçãs murchas.’

 A megera bateu-me a porta na cara e eu voltei para casa trazendo nada nas mãos. Mas você sabe meu velho, porque afinal ela age assim. A bruxa velha morre de inveja de nosso jardim. Ela trocaria ‘amavelmente’ toda a sua plantação de cebolas para conseguir flores mais bonitas e frescas que as nossas. Mal ela sabe que fazer jardim é mais que uma arte; sem nossa ajuda, que ela faz questão de recusar, jamais conseguirá transformar sua plantação de cebolas em um maravilhoso jardim Amanhã, irei lá novamente e vou levar-lhe algumas dessas maçãs murchas, algumas não; vou levar-lhe o saco inteiro. Coitada! Ela não tem nenhuma. Vai ficar tão sem graça! Já estou até vendo a sua cara!”

Cheia de contentamento, a esposa tornou a abraçar o marido e lhe deu fortes e estalados beijos. Pareciam duas crianças.

Após observarem tudo o que se passou, por fim, lhe disseram os franceses: “Bom, meu velho lavrador, as perdas de valor, não mudaram o humor de sua esposa nem por um instante sequer.”

“Não perdi nada de valor. Os homens acreditam que tudo funciona por meio da troca e eu só lhes ministrei uma dose do seu próprio remédio. Bem se vê que não sabem de nada.”

“Seja lá como for, ganhaste a aposta. Tome aqui, sua bolsa de ouro.”

“Bastam-nos apenas algumas moedas”. Disse o velho, para a surpresa dos franceses.

“Algumas moedas? É muito pouco para o resto da vida, pense bem meu velho.”

“Não há o que pensar. Talvez nem vivamos tempo suficiente para gastar todo esse tesouro. Vamos, apenas umas moedas e tudo ficará bem.”

Assim, a felicidade do casal foi imensa. Depois de todo aquele troca-troca tão comum entre os homens, o velho lavrador, mesmo com aquela pequena quantidade de moedas, se tornou muito mais rico do que se tivesse vendido o cavalo dez vezes, por trinta vezes mais o seu valor. E isto nos leva a pensar que realmente o velho estava muito certo ao dizer que TUDO ESTÁ BEM QUANDO ACABA BEM!

By Fernando Pessoa

                           "Eros e Psique"
                         
(FERNANDO PESSOA)


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.